Polipoiesis









FBA.UP// Design Multimédia
Cláudia Salgueiro, David Conceição, Eliana Pires, Tânia Gomes



Cybertext “is the wide range (or perspective) of possible textualities seen as a typologie of machines, as various kinds of literary communication systems where the functional differences among the mechanical parts play a defining role in determining the aesthetic process” (Aarseth, 1997).

Cibertexto é tido como um conjunto do qual fazem parte não só o texto enquanto signo visual, mas também o meio e o ser humano enquanto operador. Tendo em conta isto, partindo de referências dadaístas e surrealistas, pretendemos criar um elemento de interacção entre o utilizador e o texto em si. Promovendo a descoberta, exploração e reinterpretação face àquilo que é criado e a partir daquilo que já possuímos.
Sugere-se então a criação de um poema, criado a partir de um sistema de aleatoriedade que tem por base uma selecção de versos provenientes de obras poéticas de vários autores portugueses de relevo, colocando o utilizador face à narrativa (ou não narrativa) que se vai construindo.

Ao abrir a página no browser o utilizador depara-se com um primeiro verso, gerado automaticamente, e clique após clique, vai construindo um poema. Assim sucessiva- mente desde o ponto inicial até a uma composição que se vai estendendo pelo espaço da aplicação infinitamente, numa construção multiforme. É importante também frisar o carácter de efemeridade e de constante mutação que aqui também se aplica, uma vez que sempre que o utilizador começar de novo, o conteúdo da composição poética será sempre diferente, sendo que esta varia segundo o sistema de aleatoriedade criado.
Pretende-se a união e a junção, uma mistura e partilha de versos de diferentes pessoas que enfatiza o que de igual e de diferente há entre eles. “O quem é quem e o que é o quê”, não importam aqui, mas sim as ligações que se geram entre eles, a criação de algo novo a partir daquilo que existe. É uma colectânea de poesia numa outra forma, onde o dinamismo da literatura portuguesa se revela e adquire uma nova expressão.
Pretendemos também com este projecto criar uma relação nova entre o utilizador e os vultos da literatura portuguesa. Na nossa pesquisa inicial constatamos que, por vezes, o acesso aos conteúdos literários muitas vezes é feito de uma forma hermética e específica, exclusiva a peritos e a estudantes da área das Letras. É também uma forma de conhecimento que vive muito da sua transmissão por forma impressa, sendo que on-line a difusão deste conteúdo é feita muitas vezes de forma irregular, apócrifa e fragmentada. Pretendemos portanto com o nosso projecto promover também o acervo de obra poética do qual dispusemos para construir o gerador de poesia infinita. 

Sendo a plataforma a parte digital do projecto, surgiu a necessidade de alguma forma transpor o seu conteúdo para a realidade. A poesia surge e é ainda hoje, um meio essencialmente criado e difundido num meio físico, o papel, tornou-se por isso pertinente criar uma ligação entre estes dois mundos, e explorar também nós as possibilidades que a nossa plataforma oferece em termos de espaço físico. Por conseguinte, abordámos dois espaços e perspectivas diferentes, a primeira, tendo em conta a virtualidade do projecto, teve por base projecções que transportam o texto em constante mutação e desenvolvi- mento. Este surge ora em paredes e planos distintos, onde se explora a sua deformação e comportamento em diversas perspectivas geométricas, ora absorvendo todo o espaço em causa e criando ambientes onde o leitor é agora quem passa e quem de um momento para o outro é trazido para dentro do projecto.

A segunda abordagem, parte de uma intervenção onde se passa mais concretamente
da plataforma e dos textos criados para o papel, procuramos perceber e questionar-nos sobre esta relação que pega na efemeridade dos textos criados e a torna física e concreta. Ambas procuram essencialmente entender qual o papel e pertinência do nosso projecto para além da plataforma web. Que questões se levantam? Que novos sentidos se geram? Se o cibertexto é a relação entre o texto, o meio e o ser humano, de que maneira esta alteração de meio e de modo de operar o afecta? O que acarreta de novo? O que não acarreta?

Essencialmente é isto que pretendemos questionar ao amplificar o projecto a diferentes espaços, Marshall McLuhan dizia que o meio é a mensagem, que importância tem esta alteração de meio?
Quando criamos o gerador de poesia, promovemos uma iteração e uma descoberta face ao texto, incidindo na reinterpretação da narrativa ou não-narrativa criada, estes factores são passíveis de continuar a ser questionáveis no espaço real, contudo não deixa de ser importante perceber qual a influência deste espaço na narrativa e na interpretação daquilo que é criado e exposto.

No fundo, será isto poesia?
Italo Calvino, numa citação destacada no enunciado da proposta, refere que “The true literature machine will be one that itself feels the need to produce disorder.” O nosso projecto poderá ser considerado também ele uma máquina literária, uma vez que parte da aleatoriadade e do acaso a escolha do próximo verso e no fundo de todo o poema. Mas até que ponto a desordem que proporcionamos será poesia, ou mesmo texto literário?
É sobre isto que pretendemos reflectir e dar a pensar. A descoberta de possibilidades, a reinterpretação e a exploração do texto em si foram os motes do trabalho e os pontos de partida para criação e desenvolvimento do projecto.



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